4 Dias na Ilha da Boa Vista: Praias Desertas, Viagem Barata e a Realidade por Trás do Paraíso
Origens
A Ilha da Boa Vista , em Cabo Verde — ou simplesmente Boavista , como todos a chamam — parece ter sido projetada para ser vista à distância. Quando os navegadores portugueses chegaram ali no século XV, por volta de 1460 , aquilo que mais os surpreendeu não foram montanhas escarpadas nem falésias dramáticas, mas exatamente o contrário: um relevo plano , aberto, limpo, onde os olhos correm livres até perder de vista. A linha costeira era clara, contínua, infinita. As praias, largas e luminosas. Do mar, a ilha destacava-se como um farol natural. E foi por causa dessa visibilidade perfeita para a navegação que lhe deram o nome — Boa Vista , no sentido mais literal e poético da palavra: boa visão, boa leitura do mundo, bom presságio para quem chegava.
Cabo Verde é um arquipélago feito de ilhas e ilhéus espalhados pelo Atlântico, cada um com a sua identidade própria. Entre todas, apenas Santa Luzia permanece desabitada — todas as outras pulsaram vida, resistência, história e cultura ao longo dos séculos. A Boa Vista, no entanto, guarda um silêncio diferente. Um silêncio de deserto, de vento, de mar aberto. E talvez seja exatamente por isso que, ainda hoje, continua a conquistar quem a vê pela primeira vez… e não só.
É muitas vezes apresentada como um destino exclusivo de resorts, pulseiras tudo incluído e luxo fabricado. Mas esta nossa viagem de quatro dias no final de outubro provou-nos exatamente o contrário: é possível visitar a Boa Vista de forma económica, consciente, próxima da população local e ainda assim viver dias absolutamente inesquecíveis.
O que encontrámos foi muito mais do que praias bonitas. Encontrámos silêncio, vento, mar quente, autenticidade e um contraste social que não aparece nos catálogos turísticos. Este artigo é o relato real dessa experiência.
Boa Vista vive de contrastes extremos — entre o luxo dos resorts isolados e a simplicidade das comunidades locais, entre o deserto absoluto e o mar sempre presente, entre o turismo de massa e a vida que continua quase imutável longe dos hotéis.
Mais do que visitar locais, esta viagem permitiu-nos compreender a ilha como um todo. E isso muda completamente a forma como a vivemos depois.
Viajámos de quinta-feira a domingo, o que nos permitiu quatro dias completos na ilha, tempo ideal para descansar, sentir o ritmo de relax e “No Stress” caraterísticos e a paz de espírito que só um mar azul e o Sol no corpo nos traz.
Viajando para a Ilha da Boa Vista
A decisão de viajarmos para Boa Vista nasceu da combinação certa na hora certa. Precisávamos de uma viagem curta , com sol garantido , queríamos voo direto, preço baixo e, além disso, um destino onde fosse possível se desligar de verdade do mundo . A Boa Vista reuniu tudo isso.



Boa Vista vale a pena?
A Boa Vista é perfeita para quem procura descanso absoluto, praias quase selvagens, simplicidade, silêncio e natureza em estado puro.
Não é um destino de cidade, nem de animação constante, nem de vida noturna.
Aqui, o luxo verdadeiro é ter espaço, tempo e horizonte livre.
Visto e Passaporte para Cabo Verde
Antes de embarcar em uma viagem para Boa Vista, Cabo Verde, é muito importante cuidar de toda a documentação necessária. Seguindo esse passo a passo, sua chegada será tranquila e sem surpresas.
Passaporte:
Todos os cidadãos portugueses e a maioria dos europeus precisam de um passaporte válido por pelo menos seis meses a contar da data de entrada. Certifique-se que o documento está em bom estado e possui páginas livres para os carimbos de entrada e saída.
Visto:
Para visitar a Boa Vista, é obrigatório obter um visto de turismo online. O processo é rápido e evita filas no aeroporto. A inscrição é feita no site oficial do Governo de Cabo Verde e permite receber o visto digitalmente.
Inscrição e Pagamento Online:
No site de vistos, deve preencher os dados pessoais, detalhes da viagem e informações do alojamento. O pagamento é efetuado online, de forma segura, com cartão de crédito ou débito. O valor do visto varia entre 25€ e 40€, dependendo da nacionalidade e da duração da estadia. Após a confirmação, imprima ou guarde o visto digital para apresentar à chegada.
Dicas essenciais:
- Trate do visto com pelo menos 1 mês de antecedência.
- Confirme a validade do passaporte.
- Verifique se a companhia aérea exige documentação adicional.
Seguindo estes passos, a sua viagem para a Ilha da Boa Vista decorrerá sem sobressaltos, permitindo que aproveite praias desertas, passeios culturais e as paisagens únicas de Cabo Verde.



Quando ir
Se há algo que torna a Ilha da Boa Vista especial, além das suas praias desertas e dunas impressionantes, é o clima quente e ensolarado que permite aproveitar a ilha praticamente durante todo o ano. De forma geral, Boa Vista tem clima quente e árido durante a maior parte do ano, possibilitando o turismo quase em qualquer época, mas com preferência pelos meses secos e menos ventosos para tirar o máximo proveito das praias e passeios. As temperaturas médias variam entre 25°C e 31°C nos meses mais quentes, a estação das chuvas é curta e concentrada entre julho e setembro, com precipitação anual baixa e os ventos alísios predominam entre dezembro e fevereiro, podendo trazer a conhecida “Bruma Seca” (névoa de areia).
Assim, para aproveitar ao máximo as praias, o sol e as atividades ao ar livre, recomenda-se visitar Boa Vista durante a estação seca (novembro a junho), evitando o pico das chuvas em setembro e o aumento do calor entre agosto e outubro, embora ainda seja um período viável para turismo.
Entre janeiro e junho, o tempo é particularmente agradável, perfeito para explorar praias, fazer passeios de barco e percorrer a ilha sem contratempos meteorológicos. O período entre julho e outubro ainda apresenta condições favoráveis, embora setembro seja considerado o mês mais chuvoso. Já os meses de novembro e dezembro combinam temperaturas amenas com baixa precipitação, sendo ideais para quem prefere evitar calor intenso e chuvas eventuais.
O final de outubro revelou-se, simplesmente, o segredo mais bem guardado – a altura perfeita. Durante toda a estadia tivemos temperaturas a rondar os 30 °C, água do mar nos 26°C e dias de sol constante. O calor sente-se, mas é suportável. O vento refresca. O mar convida.
Além disso, por ser ainda fora da época alta, a ilha está plenamente tranquila, os preços são mais simpáticos e as praias ficam praticamente desertas.
Voos
O nosso voo foi comprado com cerca de mês e meio de antecedência. Optámos pelo Voo direto Lisboa – Boa Vista, da easyJet, com duração de cerca de 4 horas. O preço final foi de 177 € ida e volta por pessoa, apenas com item pessoal incluído — um valor absolutamente excecional para uma ilha africana. Chegámos a Boa Vista antes das 11h da manhã e o voo de regresso seria só pelas 17h, pelo que os 4 dias foram aproveitados por completo.
➡️ Dica prática: use plataformas como o Google Flights e o Skyscanner para criar alertas de preço. Os bons voos aparecem — mas voam depressa.


Dormir fora dos resorts
Em vez de um tudo incluído a passar os 600€ para apenas três noites, fizemos uma escolha completamente diferente — e que viria a transformar toda a nossa experiência na ilha. Optámos pelo Solaren Apartments Boavista, um apartamento T1 simples, com cozinha equipada, espaço só para nós e uma localização absolutamente privilegiada, mesmo em frente à Praia Cabral, para nós uma das melhores praias, no sentido em que dá para nadar, fazer uma caminhada agradável e ver um por do sol único.
O preço? Reservado através da Booking.com, apenas 123€ bastaram para nos instalarmos muito bem estas 3 noites na ilha.
Dormir fora dos resorts mudou tudo. Mudou a forma como andámos pela vila, sempre a pé. Mudou a forma como fizemos as compras, no supermercado local. Mudou as conversas inesperadas, os sorrisos trocados, os olhares curiosos. Deixámos de ser turistas fechados numa pulseira de plástico e passámos, ainda que por poucos dias, a fazer parte da vida real da ilha.
E talvez o mais importante de tudo: o dinheiro ficou na economia local. Em vez de desaparecer em grandes cadeias internacionais, ficou ali mesmo, nas mãos de quem lá vive todos os dias. E isso, para nós, foi tão valioso quanto o mar azul à nossa frente. Quando fazemos viagens para países mais desfavorecidos temos sempre tendência em comprar mais artesanato e lembranças.
Alojamentos
Luxo
Médio
Económico


Como nos deslocámos pela ilha
A ilha não é grande, mas as distâncias acumulam rapidamente. Para conseguir ver os principais pontos naturais sem alugar carro, optámos por fazer um tour de dia inteiro, feito com guias locais. Foi assim que atravessámos praias, dunas, deserto e pequenas povoações e foi desse modo que ficámos a saber mais acerca dos hábitos dos locais e das tradições da terra.
O táxi só foi usado mesmo como transfer de e para o aeroporto. Preferimos sempre deslocar-nos a pé dentro de Sal Rei, a capital da Ilha.
Praias que fazem da Boa Vista uma ilha diferente
Boa Vista não é verde nem montanhosa. É feita de areia, vento, dunas e um mar de azul hipnótico. As praias são imensas, muitas vezes completamente vazias, sem bares, sem música, sem turistas.
Entre os lugares que mais nos marcaram estiveram a Praia de Chaves, a praia de Santa Mónica, a praia da vila de Sal Rei e a impressionante Praia do Naufrágio, onde um cargueiro enferrujado continua encalhado na areia como uma ferida aberta no meio do paraíso.



O nosso roteiro de 4 dias na Boa Vista
DIA 1: Chegada e Sal Rei
Ao final da manhã já tínhamos a nossa mini bagagem no apartamento. A Dª Jacira foi de uma simpatia extrema e tivemos logo acesso ao apartamento, estrategicamente situado em frente à Praia Cabral e num empreendimento com piscina. Fizemos o check-in e passámos logo à parte de explorar Sal-Rei, começando por almoçar um magnífico arroz de polvo na esplanada com vista para o mar, do restaurante “Casa do Pescador”.



DIA 2: Sal Rei, praias e pôr do sol
No segundo dia na Boa Vista, voltámos a sair a pé, como tínhamos aprendido a gostar: sem pressa, sem planos rígidos, apenas seguindo a luz, o vento e o mar. Desta vez, decidimos explorar com mais atenção a zona costeira junto a Sal Rei, caminhando ao longo das praias, sempre com o oceano do lado direito e a vila a ir ficando para trás.
A partir dali, seguimos pela praia, inicialmente num troço mais agreste, com muitas rochas no areal e dentro de água, bonito de ver, mas menos convidativo para mergulhos.
Continuámos a caminhar sempre para sul, já em direção à Praia de Chaves, mas ainda numa zona colada à vila. E foi aí que descobrimos, um daqueles lugares que parecem segredo. A água tornava-se subitamente mais limpa de rochas, o fundo mais suave, o mar mais convidativo. O areal abriu-se num tapete de areia branca, fina e luminosa, e ali decorriam aulas de windsurf, com uma vela colorida a riscar o azul intenso do Atlântico.
Ficámos ali boa parte do dia. Entre mergulhos, caminhadas à beira de água, sombras improvisadas e longos momentos de silêncio, o tempo simplesmente deixou de contar. A Boa Vista tem esse dom raro: abranda-nos por dentro.
Ao final da tarde, regressámos em direção ao nosso alojamento para ver o pôr do sol na Praia Cabral, mesmo em frente à “nossa casa”. O sol descia lento, alaranjado, e nós sabíamos que aquele não seria um pôr do sol qualquer. Aquela praia é também uma das zonas de desova das tartarugas e tivemos a sorte de espreitar o viveiro de ovos de tartarugas marinhas, protegido por voluntários locais.
Ali, entre a luz dourada, o som do mar e a consciência de que uma nova vida estava a começar debaixo da areia, percebemos que a Boa Vista não nos estava apenas a oferecer descanso. Estava a oferecer-nos tempo, silêncio e significado.



DIAS 3 E 4: Tour pela ilha e praias
Para lá da vila e das praias mais próximas, a Boa Vista revela-se verdadeiramente quando nos entregamos à estrada, de preferência num tour de dia inteiro, guiado por quem conhece a ilha desde sempre. Foi assim que tivemos uma visão completa do contraste impressionante entre o deserto, o mar, as pequenas povoações e as praias quase intocadas.
Pode aproveitar estes dois dias para conhecer a ilha e fazer sandboard e dar um mergulho nas melhores praias.
O que visitar na Ilha da Boa Vista
SAL REI: O CORAÇÃO AUTENTICO DA BOA VISTA
Sal Rei é a pequena capital da Boa Vista, onde a vida acontece devagar, com simplicidade e autenticidade. É aqui que vive a maior parte da população, é daqui que partem os barcos de pesca, os tours pela ilha e os passeios de mergulho, e é nesta vila costeira que se sente o verdadeiro ritmo da ilha, longe da agitação dos resorts. As ruas tranquilas, o comércio local, as crianças a brincar e o peixe fresco chegando todas as manhãs criam uma atmosfera única, típica de Cabo Verde.
Apesar do seu tamanho reduzido, Sal Rei oferece tudo o que um viajante precisa: supermercados e mercearias para compras do dia a dia, restaurantes simples e económicos onde se prova peixe fresco, atum, grogue e a tradicional cachupa, multibancos, farmácia, lojas e serviços essenciais.
A Praia de Sal Rei, protegida pelo Ilhéu de Sal Rei (também conhecido como Ilhéu da Praia de Sal Rei), é um verdadeiro cartão-postal. Com águas calmas e claras, é perfeita para banhos, passeios de barco, snorkel ou simplesmente contemplar o pôr do sol.
Explorar a vila a pé é uma experiência por si só. Entre passeios, pode visitar o Mercado Municipal, sentir a vida quotidiana da ilha, ver frutas tropicais, legumes e peixe fresco e conversar com os habitantes locais. A Igreja de Santa Isabel, simples e charmosa, oferece um interessante mergulho na história e na cultura cabo-verdianas. E para os que gostam de sabores autênticos, provar o grogue – bebida destilada de cana-de-açúcar, produzido de forma artesanal, com frutas ou mel, parecida com o rum – e os pratos tradicionais, como a cachupa, em restaurantes familiares, é obrigatório.
No centro da vila encontra-se a estátua de Aristides Pereira, primeiro Presidente da República de Cabo Verde, inaugurada durante as comemorações dos 50 anos de independência, que se tornou um marco simbólico da história recente da ilha.
Mesmo sendo pequena, Sal Rei combina história, cultura, gastronomia e natureza. É o ponto de partida ideal para quem dorme fora dos resorts, permitindo viver a ilha de forma real — ir ao pão de manhã, comprar fruta fresca, tomar um café local e simplesmente observar a vida a passar. Para quem viaja de forma independente, ficar em Sal Rei é a escolha mais prática e genuína da Boa Vista, oferecendo uma experiência muito mais autêntica do que os cartões-postais turísticos.



DESERTO DE VIANA
Um dos lugares que mais nos marcou foi o Deserto de Viana, uma paisagem absolutamente inesperada em pleno Atlântico. Dunas claras, vento constante e um silêncio quase absoluto fazem deste lugar uma das experiências mais surreais da ilha. Diz o guia que aquelas areias foram trazidas pelo vento, a partir do Saara, sendo que a costa do Senegal fica a mais de 400 km de distância. É impossível não pensar que estamos no meio de África… rodeados de oceano. Muitas pessoas não sabem, mas Boa Vista também recebe, em determinados dias do ano, a influência direta do Deserto do Saara. A chamada bruma seca acontece quando poeiras finíssimas do deserto são transportadas pelos ventos até Cabo Verde, criando um céu esbranquiçado, quase leitoso, e um ar mais denso. É um fenómeno natural impressionante, que nos lembra como estas ilhas estão profundamente ligadas ao continente africano — não só culturalmente, mas também geograficamente e até atmosfericamente.
Quando isso acontece, o pôr do sol ganha tons ainda mais dourados e o ambiente fica quase místico. Não é perigoso, apenas exige alguns cuidados para quem tem problemas respiratórios. Para muitos viajantes, é até uma experiência curiosa de presenciar — sentir o Saara no ar, no meio do Atlântico.
O que fazer aqui:
- Passeios a pé pelas dunas
- Fotografar a paisagem
- Sentir o silêncio absoluto
- Sandboard (em alguns pontos)



PRAIA DE CHAVES E DUNAS DO MORRO DE AREIA
(Localização: oeste da ilha | Acesso: estrada + trilhos)
Antes de chegar à imensidão da Praia de Chaves, é preciso atravessar um dos cenários mais surreais da Boa Vista: as dunas do Morro de Areia. Ondas intermináveis de areia clara, moldadas pelo vento, estendem-se até onde a vista alcança no plano acima da praia idílica. Durante vários minutos, a paisagem deixa de parecer uma ilha e passa a parecer pleno deserto africano.
Estas dunas fazem parte da Reserva Natural de Morro de Areia e são formadas por areias transportadas ao longo de milhares de anos desde o Saara, através dos ventos alísios. É por isso que, em certos dias, a ilha vive a chamada bruma seca, quando o céu fica esbranquiçado e o ar mais pesado.
O acesso à Praia de Chaves só pode ser feito de viatura 4×4, precisamente por causa destas dunas profundas e instáveis. Nenhum carro normal consegue atravessá-las. O próprio percurso faz parte da experiência: subir, descer, deslizar na areia, sempre com o mar a surgir aos poucos no horizonte.
E quando finalmente se chega, o contraste é total — o azul intenso do Atlântico, a areia larga e selvagem, o vento forte e aquela sensação de estarmos num lugar absolutamente intocado. Uma das chegadas de praia mais impressionantes de Cabo Verde.
A Praia de Chaves é uma das praias mais famosas da ilha — longa, selvagem, ventosa, com um mar poderoso e tons de azul que parecem irreais. Aqui percebe-se bem porque a Boa Vista é considerada um paraíso para quem ama praias naturais e desertas. Não há bares, não há música, não há filas de chapéus de sol. Só mar, areia e horizonte.
Atividades possíveis:
- Caminhadas longas
- Passeios de moto 4 (quad)
- Observação do mar
- ⚠️ O banho exige cuidado devido à forte rebentação




PRAIA E GRUTAS DA VARANDINHA
(Localização: sul da ilha | Acesso: 4×4)
A Praia da Varandinha é uma das zonas geológicas mais impressionantes da ilha. É aqui que se encontram as famosas Grutas da Varandinha, duas grandes grutas abertas nas falésias pela erosão do mar ao longo de milhares de anos.
Na gruta maior, mantém-se uma tradição curiosa e muito simbólica: os visitantes empilham pequenas pedras, fazendo um pedido em silêncio. O interior da gruta está cheio dessas pequenas torres, criando um ambiente quase espiritual, onde natureza, fé e imaginação se cruzam.
O que fazer aqui:
- Explorar as grutas
- Fotografar os arcos naturais
- Observar a força do mar
- Caminhar na praia selvagem
- Pedir um desejo




PRAIA DA ATALANTA, CABO SANTA MARIA
(Localização: norte da ilha | Acesso: 4×4)
Um dos pontos mais marcantes da ilha é o Cabo Santa Maria, um cargueiro espanhol que encalhou na Praia de Atalanta na madrugada de 1 de setembro de 1968. Construído em 1957, o navio seguia de Espanha para a América do Sul, transportando carga variada. Apesar das tentativas de reboque, o casco permaneceu preso na areia e ao longo das décadas transformou-se num símbolo visual da ilha — a grandiosidade do transporte marítimo confrontando-se com a força implacável do Atlântico.
Hoje, o que resta é um esqueleto enferrujado que se recorta contra a areia e o mar, criando uma imagem de beleza melancólica e decadência poética. A visita é feita a partir da Praia de Atalanta, cerca de seis quilómetros a nordeste de Sal Rei, e exige veículo 4×4 devido às trilhas de areia e terreno irregular. O contraste entre o navio abandonado e a natureza circundante é impressionante, e muitos viajantes consideram esta paragem uma das experiências mais memoráveis da Boa Vista, perfeita para fotografia e contemplação.
O que fazer aqui:
- Fotografar o naufrágio
- Caminhar ao longo da bela praia
- Sentir a força do oceano



VILAS E ALDEIAS DA ILHA— a Boa Vista que não aparece nos postais
Rabil
(Localização: cerca de 6 km a sudeste de Sal Rei, próxima do aeroporto)
Rabil é a segunda maior vila da Boa Vista e tem um charme especial, com ruas de calçada simples, casas coloridas e uma atmosfera calma, típica das ilhas menos turísticas de Cabo Verde. É conhecida pelo artesanato em cerâmica, sendo o principal centro de produção de peças de barro da ilha. Aqui é possível visitar oficinas locais e ver os artesãos a moldar, queimar e decorar peças tradicionais, que podem ser compradas diretamente na vila — uma forma de apoiar a economia local e levar uma lembrança genuína.
Além da cerâmica, Rabil tem mercados locais e pequenas mercearias, onde se encontra fruta fresca, peixe seco e produtos típicos da ilha. A vila também oferece alguns cafés e restaurantes simples, onde se pode provar cachupa, peixe grelhado e grogue artesanal, enquanto se observa o ritmo tranquilo da vida local.
Rabil é um ponto estratégico para explorar outras zonas da ilha: fica perto da Praia de Santa Mónica, de trilhos de dunas e da Reserva Natural de Morro de Areia, sendo ideal para quem quer combinar cultura, gastronomia e natureza numa visita breve ou num tour guiado.



Curral Velho
(Localização: entre Sal Rei e a costa sul, a cerca de 25 km de Sal Rei)
Curral Velho é uma aldeia onde o ritmo da vida é marcado pela agricultura e pesca artesanal. Aqui, o visitante pode observar práticas tradicionais de cultivo, como a produção de milho, feijão e pequenas hortas familiares, que continuam a alimentar a comunidade local.
É um local excelente para ver a Boa Vista mais autêntica, longe das praias, e para conversar com os moradores sobre o seu dia a dia e tradições. A aldeia também é conhecida pelo artesanato em palha e vime, com cestos, chapéus e esteiras que são trabalhados à mão e vendidos a preços simbólicos.
Para os amantes de fotografia e de natureza, Curral Velho oferece paisagens rurais pitorescas, com casas tradicionais, pequenas plantações e animais soltos, tudo enquadrado pelo céu azul e pelo horizonte da ilha.
Bofareira
(Localização: aldeia costeira, cerca de 7 km a nordeste de Sal Rei)
A Bofareira é uma aldeia pequena, mas cheia de vida, localizada perto da costa. É especialmente famosa pela vida musical, sendo ponto de encontro de jovens músicos que tocam morna, coladeira e batuques, muitas vezes acompanhados de dança.
Além da música, Bofareira é conhecida pelas suas praias quase desertas e pelos pequenos cafés e bares familiares, onde se pode provar grogue artesanal, peixe fresco e pratos típicos. A aldeia também mantém tradições de pesca artesanal, sendo possível observar os pescadores a regressar do mar com as redes cheias e a organizar o peixe que será vendido na vila ou nas praias próximas.
O artesanato local em Bofareira é simples, mas encantador: pequenas lembranças em madeira, colares de conchas e tecidos coloridos feitos à mão, ideais para levar uma memória genuína da ilha. É um lugar perfeito para sentir a autenticidade da Boa Vista, interagir com a população e descobrir um lado da ilha que poucos turistas conhecem.
Povoação Velha
(Localização: interior da ilha, a cerca de 20 km a sudeste de Sal Rei)
A Povoação Velha é uma das aldeias mais antigas da Boa Vista e mantém até hoje o encanto de uma vida tranquila e quase intocada pelo turismo de massa. Fundada no período colonial, esta pequena povoação oferece um vislumbre da história da ilha, com casas baixas de fachadas coloridas e ruas de terra batida onde as crianças ainda brincam livremente.
Além da arquitetura tradicional, a aldeia é conhecida pela música local, especialmente os ritmos de morna e coladeira, que muitas vezes se ouvem de forma espontânea nas casas ou nos pequenos bares. Um destaque cultural é a estátua/busto de Maria Barba, cantora e compositora natural da Povoação Velha, considerada uma figura emblemática da música cabo-verdiana. O busto encontra-se à entrada da vila e homenageia a artista pelo seu legado musical e influência na cultura da ilha.
O artesanato é outro ponto forte: tecelagens, cestos de palha, lembranças em madeira e conchas estão à venda diretamente com os artesãos, garantindo que o dinheiro da compra fique na comunidade. A visita à Povoação Velha é ideal para quem quer perceber a vida quotidiana da ilha, interagir com os locais e conhecer pequenas lojas e cafés familiares, onde a hospitalidade é genuína.


PRAIA DE SANTA MÓNICA
Esta é o lado mais selvagem e autêntico de Cabo Verde.
A Praia de Santa Mónica localizada ao lado da localidade de Curral Velho, uma pequena e remota aldeia piscatória no extremo sul da Boa Vista – a zona mais isolada e natural – é a praia mais selvagem e autêntica de ilha. É frequentemente apontada como uma das praias mais bonitas de todo o Cabo Verde — e não é exagero. São cerca de 18 quilómetros de areia branca quase intocada, banhada por um Atlântico poderoso, com ondas fortes, vento constante e uma sensação rara de estar num lugar verdadeiramente selvagem e único. Aqui a natureza manda. A última parte do percurso para aqui chegar, terá que ser feita por estrada de areia e terra batida, em 4×4.



TÚMULOS JUDAICOS DA BOA VISTA
(Localização: arredores de Sal Rei – Praia Cabral)
Mesmo ao lado da Praia de Cabral, em Sal Rei, existe um dos lugares mais inesperados da ilha: os Túmulos Judaicos da Boa Vista. Muitos viajantes passam por ali sem se aperceberem da importância histórica daquele pequeno espaço, discreto e quase escondido entre a areia, as casas simples e o mar.
Este pequeno cemitério data do século XIX e pertence a uma antiga comunidade de comerciantes judeus que se estabeleceu em Cabo Verde durante o período das rotas comerciais atlânticas. Algumas lápides ainda conservam inscrições em hebraico, embora bastante desgastadas pelo vento, pela areia e pelo sal.
O contraste é forte: de um lado, a tranquilidade do oceano; do outro, um espaço silencioso que guarda a memória de uma presença pouco falada, mas fundamental na história económica e cultural da ilha. Não há painéis explicativos, bilheteiras ou infraestruturas turísticas. É um local simples, visitável a pé, que se descobre quase por acaso — mas que fica na memória.
É mais um exemplo de como a Boa Vista não é feita apenas de praias e resorts: a história também mora nos detalhes, muitas vezes mesmo ao lado do mar.
Comer barato
Comer na Boa Vista é uma verdadeira extensão da viagem. Fora dos resorts, encontramos restaurantes simples, autênticos e com uma relação qualidade-preço surpreendente, onde o peixe fresco, a cachupa, o atum e os mariscos são presença constante.
Em Sal Rei, o centro da vida local, o Blu Marlin é uma aposta segura para quem procura peixe fresco grelhado do dia num ambiente descontraído e acolhedor, muito apreciado por viajantes que querem sabor sem luxo excessivo.
Também em Sal Rei, o Cabo Café é perfeito para provar pratos típicos como a cachupa ou a feijoada cabo-verdiana, muitas vezes com música ao vivo e um ambiente cheio de vida.
Muito próximo do porto, a Casa do Pescador é o melhor sítio para comer peixe acabado de chegar da lota, num ambiente genuíno e sem artifícios.
Para refeições com vista e ambiente de praia, o Bahia Beach Club combina restaurante e bar junto ao mar, ideal para almoços longos, cocktails ao final da tarde e pratos variados.
Já o El Mirador Boa Vista oferece uma experiência mais cuidada, com inspiração mediterrânica, tapas, paellas e marisco, sendo uma excelente opção para um jantar mais especial.
Para quem procura comida económica e sem filtros turísticos, o Ca’ Baby é um dos favoritos de locais e viajantes independentes, com pizzas e pratos simples de carne e peixe a preços justos.
Junto à zona costeira, o Cafe del Porto mistura grelhados de carne e peixe com fins de tarde animados, por vezes com música ao vivo, sendo perfeito para relaxar depois da praia.
Já o Beramar aposta na cozinha tradicional cabo-verdiana com conforto moderado e excelente relação qualidade-preço.
Fora do centro de Sal Rei, dois restaurantes merecem destaque absoluto: na costa oeste, junto a uma das praias mais famosas da ilha, o Perola d’Chaves é um restaurante-bar de praia rústico e tranquilo, ideal para almoçar peixe fresco ou marisco depois de um mergulho no Atlântico.
Mais a sul, na selvagem Praia de Santa Mónica, o Boca Beach é um verdadeiro oásis “pé na areia”, com grelhados de peixe, pratos crioulos, cocktails e uma vista absolutamente aberta sobre o oceano.
Por fim, e já como ponto de encontro obrigatório ao final do dia, o Café do Mar é perfeito para quem procura petiscos, tostas, saladas, hambúrgueres e cocktails ao pôr do sol, num ambiente informal.
Comer na Boa Vista é, acima de tudo, uma experiência de contacto com a vida real da ilha. Cada refeição é simples, verdadeira e cheia de sabor — e quase sempre acompanhada por uma conversa tranquila, um sorriso fácil e a certeza de que estamos exatamente onde devemos estar.
Algumas notas úteis antes de ir
- Em muitos restaurantes o peixe fresco do dia (atum, serra, garoupa, etc.) é a melhor opção — os cardápios mudam conforme o que a pesca local trouxe.
- Se estiver fora de Sal Rei — por exemplo, na Praia de Chaves ou Santa Mónica — os restaurantes-praia como Perola d’Chaves ou Boca Beach oferecem um ambiente excelente ao pôr do sol.
- Muitos restaurantes têm preços moderados (€€), mas se quiser experimentar marisco ou lagosta, o custo será mais elevado.
- Para uma experiência autêntica e económica, apostar em restaurantes locais, mercearias ou pequenos “snack-bars” fora do circuito turístico pode trazer maior proximidade com a cultura local e melhores preços.



O orçamento real da viagem (valores por pessoa)
No total, esta escapadinha a Boa Vista ficou aproximadamente por:
- Voo: 177 €
- Alojamento: cerca de 61 €
- Alimentação: entre 80€ a 110€
- Tour e transportes: cerca de 90 €
➡️ Total por pessoa: entre 410 € e 450 € por quatro dias.
Viajar até uma ilha africana por este valor continua a parecer quase impossível — mas é real.



Viajar de forma sustentável e ajudar a economia local
Fora dos muros dos resorts, a realidade da Boa Vista é impossível de ignorar. Muitos trabalhadores vivem com salários inferiores a 200 € por mês, enquanto o custo de vida é relativamente elevado e o acesso a bens essenciais é limitado. A dependência do turismo é total, e o contraste entre os luxuosos hotéis e as casas simples dos moradores é evidente. Esta viagem não foi apenas lazer: foi também um exercício de consciência e empatia, lembrando que é possível desfrutar a ilha e, ao mesmo tempo, contribuir positivamente para a sua comunidade.
O turismo pode ser uma força transformadora quando praticado de forma responsável. Dormir em alojamentos locais, comer em restaurantes da vila, contratar guias residentes, comprar artesanato diretamente aos artesãos e utilizar serviços locais são atitudes que fazem toda a diferença. Ao contrário, os grandes pacotes tudo-incluído raramente deixam dinheiro na ilha, algo que se percebe rapidamente ao explorar os locais fora dos circuitos turísticos protegidos.
Para tornar a sua visita mais consciente e sustentável, algumas dicas práticas ajudam bastante: leve sempre dinheiro em numerário, pois nem todos os locais aceitam cartões; use protetor solar forte, mesmo em dias nublados; prefira alojamentos fora dos resorts, sempre que possível; respeite os ritmos, a cultura e a vida quotidiana da população local; e lembre-se de que está a visitar um lugar onde a realidade diária muitas vezes é muito mais difícil do que a sua.
Viajar pela Boa Vista de forma consciente não é apenas sobre ver praias paradisíacas ou dunas douradas: é sobre criar impacto positivo, apoiar a economia local e sair com uma experiência genuína, rica e transformadora.
O que faríamos de diferente hoje
Se voltássemos hoje à Boa Vista, mudaríamos pouco — mas há uma escolha que, sem dúvida, faríamos de forma diferente: alugaríamos um carro 4×4 por um dia. O aluguer de carro não seria por necessidade, mas por liberdade. Liberdade de parar onde nos apetecesse, de explorar praias mais remotas sem horários, de sentir a ilha ao nosso próprio ritmo, sem pressas nem roteiros fechados.
Ainda assim — e isto é importante — continuaríamos sempre o tour guiado com guias locais. Não só por questões sustentabilidade, mas porque é através dessas pessoas que a ilha realmente se revela. É no banco da frente de uma carrinha poeirenta, entre histórias de vida, dificuldades e até confissões e pequenos orgulhos, que percebemos verdadeiramente onde estamos. É ali que deixamos de ver apenas paisagem e começamos a compreender pessoas, contextos e realidades. Porque viajar não é só ver — é entender.
E talvez mudássemos mais uma coisa: abrandar ainda mais. Ficar mais um ou dois dias. Não para fazer mais, mas para sentir melhor. Porque a Boa Vista não é um lugar para ser “riscado da lista”. É um lugar para ser vivido com tempo.
Muito mais que uma viagem de praia
A Ilha da Boa Vista oferece praias desertas, mar quente e dias lentos. Mas oferece também uma lição poderosa sobre desigualdade, turismo e empatia. Esta não foi apenas uma viagem de descanso. Foi uma viagem que deixa marcas.
Porque viajar não é só colecionar lugares.
É aprender a olhar para o mundo de outra forma.
E a Boa Vista ensina isso — em silêncio.

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